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O Heleno vai às compras
Um dia Heleno estava calmamente a
pensar no rumo que a sua vida estava a tomar, refastelado no
sofá, enquanto Helena navegava freneticamente pela Internet,
provavelmente num desses grupos on-line de recons.
Heleno sentia ciúmes desses grupos, do tempo que Helena dedicava
a eles e, sobretudo, da maneira como os seus olhos brilhavam
quando ela referia um tal de Sánió. "O Sánió diz que isto", "O
Sánió faz isto", "O Sánió faz aquilo". Aquele Sanió conseguia
dar-lhe a volta à cabeça.
Ele olhou para Helena, enquanto pensava em tudo isto.
Imediatamente percebeu que ela esta a ler mais um artigo da
página do Sánió, pela maneira como se inclinava para o ecrã,
quase como se tentasse entrar dentro dele. Imediatamente, Heleno
percebeu que vinham aí sarilhos.
De facto, Helena estava a ler um artigo que Sánió tinha escrito,
mas este artigo estava a interessar-lhe particularmente. Aquele
Sánió era um génio! Parecia que as palavras lhe eram dirigidas a
ela - certamente que ele era amado pelas Musas!
Sánió falava de como vivia a sua religião no dia a dia, de como
qualquer momento era oportuno para adorar os deuses e de como a
religião era prática e se fundia indissociavelmente com o resto
da vida.
Sánió vivia a sua religião, e dizia que era fantástica. Já ela e
Heleno nunca tinham feito isso. Será que era mesmo como Sánió
dizia? Se ele dizia, devia ser... Mas Heleno era um preguiçoso,
um homem que só pensava e fazia planos mas nunca agia.
- Mas isso está prestes a mudar! Ah, se está!
Pronunciou estas palavras ao mesmo tempo que se levantava do
computador e se virava para Heleno. Este estremeceu, adivinhando
que se avizinhava uma carga de trabalho para ele. Agitou-se no
sofá, desejando que houvesse algum buraco por onde ele pudesse
escapar. Mas não havia.
E foi assim que Heleno embarcou numa jornada ao Grande Massa de
Terra para comprar os apetrechos essenciais para fazer devoções
diárias aos deuses.
Ora, ora, ora, pensou Heleno, e agora, por onde vou começar? Ela
decide que tenho que fazer uma coisa e só diz para fazer. Bem
que podia ter dito o que queria para as devoções diárias! Mas
não, foi só: vai, compra e pronto!
Entrou no Grande Massa de Terra e pegou num dos cestos vermelhos
e azuis para transportar as coisas. Por onde iria ele começar?
Bem, o fogo sagrado era algo que existia em todas as cerimónias,
mas que hoje em dia não podia ser usado de forma viável. Não da
mesma forma. Então como iria ele resolver o caso?
Heleno puxou pelos seus neurónios, esforçando-se por descobrir
algo que substituiria o fogo sagrado. Depressa chegou à
conclusão que o melhor era usar uma vela: tinha fogo e estava
associada ao sagrado!
Então pegou numa das velas, uma das redondas, a mais barata
porque estava em período de contenção. A próxima escolha era
óbvia: precisava de algo para acender a vela, já que em casa o
fogão era eléctrico e o esquentador inteligente.
Primeiro pensou no isqueiro, mas depois pensou na mãezinha de
Helena que costumava ir a casa deles e armaria um escândalo se
encontrasse um objecto daqueles. Certamente ia convencer a
Helena de que ela era um viciado em tabaco e, portanto, em
droga, em tráfico, um ladrão e um violador e que, obviamente,
era má companhia e a filha devia abandoná-lo imediatamente.
Não, não podia ser um isqueiro. Então só sobravam os velhos
fósforos para fazer o serviço. Dirigiu-se à secção dos fósforos
e comprou um conjunto de quatro caixas que bem lhe podiam durar
por meio ano.
Aquilo era suficiente. Acendia a vela com uma reza a Hestia e
fazia as suas preces, apagando a vela novamente com uma oração a
Hestia. Bem, para dizer a verdade, nem aquilo era preciso -
bastavam tão somente as orações. Mas Helena queria sentir mais a
religião na pele e sentia que um pequeno ritual era mais
satisfatório para ela.
Heleno pôs de novo os seus neurónios a funcionar. Então o que
tornaria o ritual mais completo? Sacrifício? Não, não tinha
disposição para matar ou oferecer carne ou peixe todos os dias,
além de ficar caro não sabia o que lhes havia de fazer, já que
não podia queimá-los, porque não podia acender uma fogueira
todos os dias, e sentia que deitá-los ao lixo era desrespeitoso.
Pela mesma razão não podia fazer oferendas.
Bem, pensou, só sobra uma hipótese para componente de um ritual
antigo. Já tenho os hinos, o fogo, não posso ter o sacrifício ou
a oferenda, então posso ter libações!
É claro que teria que verter os líquidos pelo cano do esgoto,
através da bacia na cozinha, onde não podia acender a vela nem
fazer as rezas devido às janelas enormes e à vizinha do lado que
contaria de imediato ao senhorio, uma mulher muitíssimo católica
que os poria na rua, sem hesitação, se soubesse que eles
adoravam deuses pagãos.
Então haveria dois rituais... É claro! Uma libação pela manhã e
rezas pela tarde! Ou ao contrário? Bem, isso seria Helena a
decidir. De qualquer modo, ele tinha que pensar em que bebida ia
comprar. O tradicional vinho estava fora de questão, não só
porque nem todos os deuses gostavam, como Helena era abstémica e
os rituais seriam feitos de manhã e à noite, quando não convinha
beber álcool.
Manhã e noite? Mas é claro: leite. Só que ele não gostava de
leite... Iogurte líquido era a solução. O leite já era oferecido
na antiguidade, e o iogurte adicionava um pouco de modernismo.
Além disso vinham em práticas doses individuais!
Dirigiu-se à secção dos iogurtes, feliz por ter feito as compras
todas que Helena tinha pedido, com um toque pessoal de
genialidade. Essa noite começariam logo com os rituais!
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Vela |
1.99€ |
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Fósforos |
0.99€ |
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Iogurtes (8) |
3.48€ |
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Total |
6.46€ |
A vela é a mais
barata que se encontrou, redonda e relativamente grande,
podendo, provavelmente, durar um conjunto de três ou quatro
meses, se só for acesa para as preces uma vez por dia e a outra
vez for feita uma libação de iogurte.
Os fósforos foram também os mais baratos e são quatro caixas de
120 fósforos cada uma perfazendo um total de 480 fósforos,
suficientes para mais de um ano.
Já as duas caixas de iogurtes líquidos, com 4 iogurtes cada uma,
compraram-se aos pares para durarem uma semana e um dia. Neste
caso foram comprados Danup's, mas, obviamente, qualquer iogurte
líquido serviria. O sabor é à discrição, ou algum
particularmente adaptado à divindade a quem se honra à hora da
libação.
A libação destina-se a apenas uma divindade, provavelmente a
padroeira ou a uma que se defina para cada dia, ou ainda ao
Agathos Daimon ou Tyche. As preces podem ser feitas a quantos
deuses se desejar ou a quantos o tempo ou outros factores
deixarem.
Este é apenas um exemplo de devoções diárias e qualquer pessoa é
livre de o usar na sua prática, modificando-o ou não, ou até de
usar um ritual totalmente diferente.
Felizes devoções!
~Miguel
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