Thiasos Portus Kale


Portus Kale        Eventos        Temenoi        Biblioteca        Grupo        Contacto
 

  Helena Feminista

O sol já não estava no céu há bastante tempo, mas Helena só agora chegava a casa. Cansada do trabalho e cheia de sono ela passou pela confusão de roupa por lavar, de almofadas espalhadas e uma miríade de coisas desarrumadas que aumentaram o seu cansaço. No dia seguinte o Heleno ia ter uma surpresa, há se ia!

Os últimos dias tinham sido bastante atribulados, as encomendas tinham aumentado e parecia haver uma epidemia de gravidezes, pelo que a pobre Helena tivera que fazer muitas horas extra. O resultado - a desarrumação acumulou-se, porque as intenções do Heleno em ajudá-la raramente passavam disso mesmo, intenções.

Nestas alturas, mal tinha tempo para fazer uma prece pequena aos deuses e a sua vida religiosa praticamente estagnara - não fizera festivais nem rituais mais elaborados desde que o frenesim de trabalho começara. Mas amanhã tinha o dia livre, altura ideal para por tudo em ordem - incluindo a relação com os deuses.

Mal caiu na cama foi envolvida no abraço doce do sono e acordou já o preguiçoso do Heleno tinha saído para o seu "esforçado" trabalho. Não mudava nada. Ainda seria ele a ajudá-la a limpar a casa, quando chegasse, mais tarde. Ou melhor ainda, seria ele a limpá-la sozinho.

Depois do seu começo de manhã rotineiro, sentou-se em frente ao computador para ver o que tinha andado a tramar a comunidade helenista. Depressa encontrou um festival que não podia perder e que devia estar prestes a acontecer: a Elafebolia. Este ano calhava em Março e ela tinha quase a certeza que já era Março.

Consultou o calendário do computador e teve uma dupla surpresa: não só já era Março, como até já passara o festival de Artemis que ela não queria perder. Para além disso, era o Dia da Mulher. Que belo dia escolhera para por o Heleno a trabalhar!

Da opinião que o que importa é venerar os deuses, independentemente da forma, Helena decidiu que ainda ia a tempo de fazer uma pequena celebração a Artemis, que aliás até era uma boa "candidata" a padroeira do Dia Internacional da Mulher (curioso, que o seu festival calhasse tão perto deste dia). Mas não o podia fazer naquela confusão.

Pois bem, pegaria nas suas pernas e numa certa quantidade de coisas e veneraria Artemis de uma maneira menos tradicional mas, nem por isso, menos sincera. Além disso, o mero facto de fazer valer o seu género e obrigar o Heleno a fazer as tarefas domésticas era já uma boa maneira de mostrar que respeitava os valores da conduta de Artemis. Sorriu, pegou nas coisas e saiu.

- # -

Pão 0.52€
Morangos 3.00€
Sumo 0.60€
Total 4.12€

O que foi que a Helena fez? Muito simples. Passou pelo supermercado e comprou os produtos na lista acima: o pão era de centeio integral e vinha em pequenas carcaças, comprado meia dúzia por 52 cêntimos; como oferta para Artémis escolheu fruta, nomeadamente os morangos já que são bagas e as bagas são quase selvagens; finalmente, para a libação comprou um sumo de fruta.

Foi a um parque, ou qualquer lugar em que pudesse estar em contacto relativo com a Natureza (para quem vive em Lisboa, algumas sugestões são o Parque de Monsanto, o parque de Merendas do Zoo de Lisboa e o parque da Fundação Calouste Gulbenkian, e quem não vive em Lisboa consegue, decerto, encontrar algum lugar bom para o ritual).

O ritual, se é que se pode chamar de ritual a algo tão simples, consiste em um hino de louvor a Ártemis, com uma libação à deusa e a oferta de morangos, os quais se partilham, tal como a bebida. Quanto ao pão, é uma oferta para as criaturas de Artémis: pássaros, formigas ou outros animais que apreciem pão (ou bolo). No ritual anuncia-se a oferta aos animais de Artémis, esfarela-se o pão e verte-se para um local onde os animais poderão comer.

Basicamente, esta espécie de ritual consiste em fazer coisas que a deusa aprove. No caso de Artemis, para além do mencionado, ficam ainda algumas ideias:

  • Dedicar parte do dia ao seu animal de estimação;
  • Doar dinheiro para causas de suporte da vida selvagem;
  • Doar dinheiro para causas de direitos da mulher;
  • Oferecer outros tipos de comida a outros animais (como comida para os cães ou gatos da rua);
  • Limpar as florestas, parques e até as ruas;
  • Ajudar campanhas de promoção da reciclagem;
  • Dançar ou exprimir-se livremente de alguma forma;
  • Ajudar campanhas de apoio e promoção da liberdade;
  • Usar a imaginação e pensar em mais formas de venerar Artémis.

 

~Miguel