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  Criar Ritual

Existem vários passos tradicionais bem estabelecidos e antigos para o ritual no Hellenismos. Este artigo não é sobre eles, mas sobre inovações mais ou menos modernas que visam melhorar a experiência do ritual por parte do participante ou participantes, aumentando a experiência mística e religiosa.

Vamos discutir neste contexto duas grandes categorias de ritual: solitário e em grupo. Algumas das técnicas, como a música ou a luz, podem ser utilizadas em ambos, mas outras são específicas de um dos tipos. Quanto às técnicas, vamos abordar, por esta ordem: purificação; música; silêncio; meditação e visualização; respiração; inspiração; luz e escuridão; incubação; localização; decoração; envolvimento; introspecção; preparação em geral; língua; e demarcação do quotidiano.

De frisar ainda que, embora me vá focar no ritual grego, estas linhas de orientação são úteis, na minha experiência, em qualquer tipo de ritual, nomeadamente wiccan.



Purificação
A purificação é uma das partes antigas e tradicionais dos rituais, mas continua a ser uma parte essencial. Através da purificação preparamos claramente o corpo e a mente para entrarmos em contacto com o divino, tornando-nos mais aceitáveis, ou melhor, demonstrando respeito para com os Deuses. No Kale já existe um pequeno artigo sobre a purificação, que deve ser feita em todos os rituais, tanto solitários como de grupo.



Música
A música também era parte integrante de quase todos os rituais antigos, não apenas no ágon, mas nos hinos e, pensa-se, até na própria circunvalação que era, provavelmente, uma dança ao som da música. Para além disso, a música fazia parte das procissões e da educação base de todos os cidadãos gregos. Hoje em dia, a tendência ritual é ignorar a música, principalmente em rituais solitários.

Descobri que o uso da música pode, no entanto, aumentar a experiência ritual de forma dramática e tento sempre inclui-la nos meus rituais.

Em rituais de grupo é fácil introduzi-la, no momento da procissão, na invocação e nos hinos, e tem o benefício acrescido de aumentar a sensação de envolvimento, sobre a qual falaremos mais tarde. Em rituais solitários, a música pode consistir num simples cântico repetitivo de duas linhas, por exemplo, que até podem ser inventadas no momento.

Na procissão costumo cantar e depois faço a circunvalação com cânticos ao Deus ou Deusa do ritual, cânticos que deixo as Musas escolherem no momento, acompanhados de dança, palmas ou chocalhos. Depois, pode ainda incluir-se hinos e gosto de cantar o nome da divindade na invocação, enquanto que, normalmente, o restante é falado normalmente. A sensação de misticismo é ainda mais aumentada se o nome da divindade for pronunciado em grego antigo (Ápólôn, em vez de Apolo, Áthênê, em vez de Atena, Tuquê em vez de Sorte são alguns exemplos), como veremos mais tarde.



Silêncio
O silêncio é a directa oposição da música, curiosamente sob a alçada do mesmo Deus, Apolo. No entanto, pode contribuir tanto como a música para o ritual. O silêncio demarca o ritual do rebuliço barulhento do dia a dia e marca viragens dentro do próprio ritual: o silêncio a seguir à purificação com cevada, com o barulho dos grãos (fantástico em soalho flutuante) a diminuir gradualmente é arrepiante. O subir gradual da voz e os eventuais gritos durante o sacrifício seguidos de um silêncio abrupto é fantástico. Outros silêncios maiores, acompanhados de introspecção, inspiração, divinação, meditação, entre outros, podem também beneficiar o ritual.

O silêncio pode, e deve, ser usado tanto em rituais solitários como de grupo, e embora seja mais fácil de obter em rituais solitários, é mais impressionante em rituais de grupo. Infelizmente é difícil encontrar um sítio com silêncio absoluto hoje em dia. O silêncio fica sempre bem acompanhado de escuridão, de facto costumam coexistir na natureza, e esta combinação é essencial na incubação.



Meditação e Visualização
Práticas originariamente orientais, a meditação e a visualização há muito que conquistaram um lugar entre as práticas e religiões mais recentes, como o Neo-Paganismo, a Wicca e Neo-Druidismo. Mas entre o Hellenismos, que pretende remontar à Antiguidade Clássica, é uma prática que não faz parte do tradicionalismo, embora seja praticada virtualmente por todos os helenistas de religião. De facto, a meditação intelectual, aquela em que nos concentramos num problema para o resolver e assumimos todos os pontos de vista, processo a que a maioria das pessoas associa a palavra meditar, foi inventada pelos gregos.

Mas a meditação e a visualização não faziam parte do ritual, apenas da filosofia e, quiçá, da política, ciência e outras áreas. Hoje em dia, podem constituir experiências avassaladoras quando integradas harmoniosamente no ritual: meditar como preparação, meditar para conhecer a divindade, meditar como forma de divinação, meditar durante a fumigação, visualizar a Katarsis, visualizar como elemento mágico são apenas alguns exemplos.

As meditações podem ser silenciosas, focando-se num determinado aspecto, que seja uma divindade, um poder ou, simplesmente, o terceiro olho ou a respiração, acompanhadas de mantras, como o nome da divindade ou um epíteto, ou uma canção simples, de quietude, em que se mantém uma posição constante, ou dinâmicas, em danças, coreografias e até exercício. É melhor se praticada individualmente antes dos rituais ou então em rituais solitários, pois pode estragar a dinâmica de grupo ao centrar-nos na individualização do nosso próprio umbigo (e não quero dizer chacra solar…).



Respiração
A respiração está intimamente ligada à meditação e é reconhecida pela própria ciência como forma de tradução fisiológica de uma experiência mística: uma boa respiração conduz mais oxigénio ao cérebro, o que potencial o seu funcionamento acima do normal. Assim, basta tomar uma respiração profunda, ou acelerada, dependendo dos gostos ou momentos, sendo especialmente eficazes em situações de silêncio ou meditação, embora a dança, desde que não haja música, seja uma das melhores candidatas à respiração rápida. Obviamente, a respiração é da responsabilidade de cada um, pelo que a única maneira de garantir a sua integração é num ritual solitário, embora qualquer um a possa praticar em rituais de grupo.



Inspiração
A inspiração reforça o contacto com o divino e opõe-se directamente à estrutura rígida associada à maioria dos rituais sem, no entanto, a violar. Incorporar a inspiração no ritual significa ter partes destes reservadas a inspirações, ou seja, a dizer ou fazer aquilo que os Deuses nos inspirarem.

Por exemplo, podemos definir que a canção seja de inspiração, que a meditação seja uma espécie de jornada inspirada no momento, que cada elemento do grupo possa dizer algo que esteja inspirado a dizer no momento, ou um momento para cada um reflectir sobre a sua noção da divindade celebrada.

Como deu para verificar nos exemplos, a inspiração pode ser incorporada nos dois tipos de ritual, mas é muito mais fácil e, provavelmente, melhor nos rituais solitários. Normalmente, convém que os rituais de grupo estejam muito bem definidos.



Luz e Escuridão
A luz e a escuridão já eram utilizadas na antiguidade em que havia casas escuras para certos rituais, nomeadamente os mistérios ou rituais ctónicos, para além de grutas sagradas. Hoje, só podemos utilizar técnicas de luz e escuridão no interior, fechando as janelas para obter escuridão ou escancarando-as para que a luz encha o sítio. A escuridão combinada com o silêncio alternado com cânticos, incubação e meditação contribui muito para uma sensação mística. A iluminação do escuro proveniente do acender da chama sagrada também é impressionante. Por outro lado, o emergir para a luz nalguma parte de um ritual simbólico é uma das experiências mais místicas que se pode ter.



Incubação
A incubação é um prática xamanista intimamente relacionada com o silêncio e o silêncio e, por definição, solitária ou em par. Consistem em longos períodos de introspecção, transe ou meditação num ambiente solitário, silencioso e, normalmente, escuro, por vezes fumigado. Encontra-se sob o domínio do Deus Apolo e quem já a experimentou diz que é uma experiência fantástica e inesquecível. Dura pelo menos um dia, mas pode prolongar-se por um fim-de-semana, uma semana ou mais. Os retiros são uma forma mais leve de incubação que pode ser praticada em grupo.

A incubação, devido à complexidade, só deve ser praticada em rituais únicos, como iniciações ou transições. Versões mais curtas, no entanto, podem ser usadas em qualquer ritual.



Localização
A localização relaciona-se com todos os outros factores, mas a principal consideração é a disponibilidade. A primeira escolha deverá ser entre o ritual no exterior ou no interior, cuja escolha deve variar conforme o Deus em celebração e conforme a disponibilidade da pessoa ou pessoas, bem como em relação ao tempo: a chuva impede rituais de exterior, o calor também…



Decoração
A decoração pode fazer a diferença entre um ritual bem sucedido e um ritual que quase foi bom. O propósito da decoração é focar a mente no ritual, para além de agradar, possivelmente, aos Deuses. Por isso mesmo, convém que se adeqúe ao ritual e ao Deus ou Deusa em questão. Por exemplo, imaginemos que estamos a fazer um ritual a Apolo: decoraremos com jarras com jacintos ou folhas de loureiro, poremos objectos e imagens referentes à música, como claves de sol ou liras, imagens do Deus podem ser espalhadas ou postas no altar, tripés também podem ser usados. Esta é mais ou menos a ideia.



Envolvimento
Nos rituais de grupo é importante que cada participante sinta que é, de facto, um participante, isto é, é necessário que cada pessoa tenha um papel, de preferência bem definido antes do início do ritual. A procissão é um local óbvio para atribuir papéis, como a portadora da água, o músico (ou portador do rádio), portador do centeio, senhor do sacrifício, pessoas com decorações ou instrumentos simples, como chocalhos, etc. Mas a participação não se deve limitar à procissão: na purificação todos tomam lugar; se houver hinos suficientes pode atribuir-se um a cada pessoa para que o leia, ou então dividir hinos grandes em partes; nas ofertas cada um pode ofertar algo e pedir algo ou agradecer por algo pessoal… Finalmente, temos o ágon, menos comum, mas uma boa altura para participar.



Introspecção
A introspecção reporta-se mais a rituais solitários. Basicamente consiste em centrar-se em si, numa espécie de meditação, e alinhar-se com o seu próprio Eu. Só assim se torna possível abrir caminho para grandes experiências místicas, já no templo de Apolo em Delfos se lia “Conhece-te a ti mesmo”.



Preparação em Geral
Preparar-se para o ritual não só serve para aumentar a experiência, como é indispensável. Muita da purificação é feita antes do ritual. Convém que os próprios pensamentos se foquem no ritual pelo menos uma hora antes, por reflexão sobre o Deus ou meditação. Para rituais importantes, ou festivais, a preparação pode estender-se por todo o dia, ou durante a semana, isto excluindo a decoração e a compra do material e escrita do ritual. Este género de preparação, mais material, torna-se ainda mais importante em rituais de grupo que podem ter que ser planeados com meses de antecedência para que se possa chegar ao maior número possível de participantes.



Língua
A língua a que me refiro é a falada. Em rituais solitários cada um pode adoptar a que for mais confortável, quer seja português, grego ou, até, inglês. Mas em rituais de grupo tem que se ter a certeza que todos compreendem o que se diz, pelo que o melhor é falar português e introduzir uma palavra grega aqui e ali, como epítetos dos Deuses, nomes das partes dos rituais ou invocações mais simples, como “Spondé” (Paz, Libação) ou “Hekas, o Hekas, estei bebeloi” (aproximadamente “Ide, Parti, tudo o que for profano”).



Demarcação do Quotidiano
A demarcação do quotidiano tem sido abordada e é, na verdade, aquilo que se procura com todas as técnicas, já que mentalizar-nos que nos afastamos do miasma do dia a dia para entrar num estado catársico em que nos abrimos completamente ao divino para que este nos possa arrebatar (às vezes assustadoramente, como relata o Mito de Dafne, por exemplo). Por isso, para demarcarmos o ritual do quotidiano usamos todas estas técnicas conjugadas com um conjunto de acções… rituais.



Boa sorte com os rituais!


 

~Miguel