| |
As Libações
Segundo Burkert, a libação é o acto
mais sublime e supremo de renúncia. Durante a libação, um líquido "bebestível"
(ou útil na alimentação) é "despejado" no solo, o que o torna
irrecuperável, e oferecido aos Deuses.
Os líquidos que tradicionalmente são ofertados são o vinho, a água,
o mel, o leite e óleos, normalmente o azeite. No entanto há que ter
algum cuidado ao escolher a oferta: alguns Deuses não recebem
libações de certos líquidos, podendo mesmo ficar ofendidos com elas,
por exemplo Deméter com o vinho, enquanto que outros preferem
determinadas ofertas, como o vinho para Agathos Daimon.
Ao fazer uma libação, o heleno abdica de algo, definitivamente, a
favor do Deus ao qual dedica a libação. É uma das práticas
religiosas mais comuns, sendo costume fazer uma libação antes de
beber vinho, na hora das refeições e em todos os rituais religiosos,
seja um festival, um sacrifício ou uma simples prece (embora esta
última possa muitas vezes ser feita sem ser acompanhada de uma
libação).
Distinguem-se dois tipos bastante diferentes de libação, embora o
objectivo de ambas seja o mesmo, são o spondé e o khoé.
Spondé é o tipo de libação mais comum: nele verte-se um pouco do
líquido a partir de uma jarra ou taça, formando um fio de líquido
controlado que se dirige ao solo/fogo. Em seguida, o heleno bebe o
restante líquido, lentamente. É o tipo de libação feito à maioria
dos Deuses, nomeadamente aos Olímpicos.
Esta libação é normalmente seguida por uma prece, precedida por uma
introdução ou pode mesmo fazer parte do hino, ou prece. Uma forma
bastante comum de anunciar uma libação é:
Spondê, deuses do
Olimpo sagrado!
Seguido pela libação e depois o pedido ou a continuação do hino.
Normalmente faz-se uma libação a Hestia e depois à divindade a quem
se dirige o ritual, terminando-se com libações no sentido inverso ao
inicial, isto é, iniciando com a libação à divindade e terminando
com a de Hestia.
Spondé significa também "tréguas", e segundo Burkert este nome
deve-se a que a libação contrastava com o sacrifício, sangrento e
violento, pondo sempre fim a este de uma forma pacífica (já que eram
feitas sempre libações a seguir aos sacrifícios).
O outro tipo de libação, o khoé é utilizado ao libar a Deuses
Ctónicos e aos Ancestrais. É mais complexo que o spondé, envolvendo
um grande jarro, muitas vezes tão grande que não se levanta e
permanece no chão, que é deitado para o chão, de forma a que o
líquido corra todo para fora, de forma descontrolada.
A libação é hoje em dia um dos pilares do Helenismos. Fazemos
libações em quase todas as ocasiões, pois são simples, práticas e
não são muito dispendiosas. Podes fazer libações para o chão, se
estiveres fora de casa, mas como a maioria dos helenos de hoje não
têm muitas hipótese de fazer isto, desenvolveu-se um novo método:
verter para uma taça que depois se deita no lavatório/solo de um
jardim, ou então deita-se a libação directamente para o lavatório.
Cremos que isto não irá ofender os Deuses, afinal, o importante no
acto da libação é o acto de renúncia de algo a favor dos Deuses, não
é muito importante o destino do conteúdo, já que os Deuses não
precisam de líquidos nossos, pois têm a sua ambrósia divina que
bebem nos seus banquetes fabulosos.
Como as libações não requerem qualquer material específico, nem
muito gasto de dinheiro, tempo ou espaço, são a prática mais comum
no Helenismos. Se quiseres tornar-te heleno, mas não souberes porque
parte prática começar, começa por uma libação.
~Miguel
|
|