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As Preces
Para o Helenismos a reza é uma forma
de expressar Kharis, ou seja, de mostrar consideração pelos Deuses.
Uma prece funciona, pois, como uma forma de comunicação entre o
Homem e o Divino, em que cada parta dá algo à outra: nós, mortais,
louvamos os Deuses, por hinos, sacrifícios, libações, festivais,
etc., na esperança de receber algo em troca deles. E é nas preces
que expomos aquilo que precisamos.
Como tal, na prece devemos oferecer algo aos Deuses para que eles
nos dêem algo (apesar dos Deuses não precisarem de nada, é sempre de
boa consideração oferecer algo como forma de "obrigado"). Por isso
se diz que a prece no Helenismos não é uma acção religiosa autónoma
e depende do sacrifício. Assim, se o praticante não oferecer um
sacrifício/oferenda na altura em que faz a prece, o que pode suceder
por vários motivos, deve fazer referência a ofertas passadas ou
prometer sacrifícios para o futuro.
Normalmente, as preces eram actos solitários, a não ser em momentos
de crise, em que a cidade podia toda rezar, e nos sacrifícios, que
eram sempre acompanhados de uma prece. Estas devem ser feitas em voz
alta, pois embora os Deuses ouçam longe, não ouvem preces pensadas.
A única excepção a esta regra é Apolo, que houve aqueles que não
falam.
Outra coisa relativa ao conteúdo e à forma das preces, é que estas
nunca eram usadas para pedir salvação depois da morte, pois não há,
para o Helenismos, castigos eternos quando uma pessoa morre. As
preces pedem amor, ajuda, comida, emprego, dinheiro, saúde, filhos,
e não salvação depois da morte.
Historicamente, as preces destinavam-se sempre a pedir algo, os
hinos é que não pediam nada do Deus e tinham como única intenção
chamá-Lo ou adorá-Lo. Algumas pessoas acreditavam e acreditam que as
preces são mais poderosas se forem em rima, ou métricas ou se forem
maiores, com mais epítetos do Deus ou mais louvores. Outras não.
Antes de passar à parte prática, resta dizer que, ao contrário do
que se passa no Cristianismo, no Helenismos não existem preces
pré-feitas, como o "Pai Nosso" ou a "Ave Maria", e, como tal, a
prece requer um pouco de iniciativa por parte do sujeito, não sendo
uma repetição quase mecânica de algo.
Na prática, estas "normas" traduzem-se numa forma, relativamente
rígida, própria da prece helenista:
Dizer tantos nomes e
epítetos quanto possível, terminando em
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"E
por quantos outros nomes quiseres ser chamado/a." |
- Por vezes, vemos referência a sítios importantes para o Deus/Deusa
a quem a prece se dirige
- Bem como a
sacrifícios e ofertas passadas que se Lhe tenham feito
- Ou a
pedidos a que Ele/a já cedeu antes ou bênçãos que deu sem serem
pedidas
- Agora é
altura de fazer o pedido
- Prometendo
algo em troca
A prece segue mais ou menos esta estrutura, podendo haver variações
e, claro, modificações nas palavras. A inovação é sempre bem vinda,
e eu até acho que os Deuses podem preferir ouvir algo diferente, em
vez de ser sempre a mesma coisa... Deve tornar-se aborrecido! Aqui
vão alguns exemplos de preces, modernas e antigas:
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Escuta-me,
ó Deus do arco de prata, tu que proteges Crise
e a divina Cila, e governas Ténedos com o teu poder!
Já antes atendeste aos meus rogos e me honraste,
atingindo duramente o povo dos Aqueus.
Cumpre agora também este meu voto:
afasta doravante dos Dânaos o flagelo ignominioso.
in A
Ilíada, Canto I |
Esta prece de Crises,
sacerdote de Apolo, faz referência a uma outra prece a que o Deus do
arco de prata [Apolo] atendeu antes:
Ouve-me, Deus do arco
de prata, Senhor tutelar de Crise
E da sacratíssima Cila, que pelo poder reges Ténedo,
ó Esminteu! Se alguma vez ao belo templo te pus um
tecto,
Ou queimei para ti as gordas coxas de touros
Ou de cabras, faz que se cumpra isto que te peço:
Que paguem com tuas setas os Dânaos as minhas lágrimas!
in A Ilíada, Canto
I |
Agora uma prece
moderna, elaborada por mim:
Ó Atena, Deusa dos
olhos brilhantes,
Donzela virgem que carregas a sabedoria numa mão
E na outra Nike vitoriosa te acompanha!
Tu que por muitos nomes és chamada
E que governas Atenas do teu templo sagrado
E que guardas a poderosa égide
E que ajudaste o astuto Ulisses a regressar a casa.
Se alguma vez te agradei em actos ou palavras,
Se já te cantei hinos, dediquei sacrifícios ou fiz
libações,
Ajuda-me também a mim, Deusa dos olhos cinzentos,
Propicia que a minha mente engendre um plano
Que, sem falha, me permita sucesso nesta nova odisseia.
Ó Deusa, filha do Crónida Zeus, ficar-te-ia tão grato
E jamais me esqueceria de ti! |
Convém distinguir
hino de prece: um hino não pede nada ao Deus, ou pede que Ele se
aproxime, sendo essencialmente uma forma de O louvar ou de O
chamar para um sacrifício. Eis o exemplo de um hino:
Ó Deus dos múltiplos
nomes, orgulho da virgem cadmeia, família do
altissonante Zeus, protector da ínclita Itália e
governador dos hospitaleiros recessos de Deméter; ó
Diónisos, que tens residência em Tebas, a mãe das
Meneades, junto do Ismeno e do local onde o terrível
dragão lançou o seu sémen; vêem-te sobre o rochedo de
dois píncaros o fumegante fulgor dos archotes que as
ninfas corícias agitam e a fonte Castália; e dos montes
Níseos buscam-te os outeiros cingidos de hera e as
costas cobertas de verdes pâmpanos, entre os evoés dos
sacros hinos imortais quando visitas Tebas; a que tu
veneras mais de qualquer outra, tal como a tua mãe,
fulminada por Zeus. Agora que toda a cidade está
enferma, sobe com passo purificador até aos cimos do
Parnaso ou demora sobre o gemebundo estreito do Euripo.
Tu que orientas as danças dos astros fulgurantes e
moderas as vozes nocturnas; vem, Senhor, filho de Zeus,
e estejam contigo as Tíades que toda a noite dançam em
delírio, invocando o teu nome, ó Diónisos!
in Antígona,
Sófocles |
Finalmente, só
falta falar na posição empregada nas preces. É a mesma posição
que se usa quando se dirige aos Deuses. Se for um Deus Olímpico,
as pernas devem estar ligeiramente abertas e os braços
estendem-se, com os cotovelos ligeiramente dobrados, para os
céus, com as palmas das mãos viradas para cima. Aqui estão fotos
em que se podem ver pessoas em posição de reza, e aqui uma
imagem.
Já se a divindade for Ctónica, os braços devem estar estendidos
em direcção à terra, com as palmas viradas para baixo, ou
deve-se proceder a actos mais complicados, como atirar-se para o
chão. E se a prece for dirigida a uma estátua de culto, as mãos
estão estendidas em direcção a ela.
Os gregos criam que as preces só não seriam atendidas se fossem
contra os planos do Deus, ou de outro Deus, se o pedido fosse
injusto ou se a pessoa não fosse piedosa.
Mais uma coisa: as maldições seguem exactamente a mesma
estrutura que as preces, sendo que o pedido é a maldição
propriamente dita. De facto, a segunda reza exemplo é uma
maldição. Normalmente há que ter cuidado na selecção do Deus a
quem se pede a maldição: Zeus nunca faria uma, Apolo só muito
dificilmente. Normalmente é a divindades Ctónicas ou a Heróis
que se faz tal pedido. Ver parágrafo anterior acerca de pedidos
injustos e pessoas impiedosas para evitar resultados
"inesperados". Não uses os Deuses!
~Miguel
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