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  Sacrifício Olímpico

Os vários tipos de sacrifício, sacrifício sangrento Olímpico, adaptações modernas, ocasiões de sacrifício, animais ofertados, locais de sacrifício, tipos de sacrifício sangrento, significado do sacrifício, preparação e ritual de sacrifício, origem neolítica, mito de Prometeu.

 

Na Grécia Antiga o sacrifício era um dos actos de entrega e de partilha com a divindade máximos e o seu significado estende-se até hoje, quer estejamos a falar de sacrifícios de animais, o que algumas pessoas abominam, quer de sacrifícios sem sangue, que já existiam na Grécia Antiga e eram comuns, por exemplo, no culto de Apolo Hiperbório ou de Zeus Hiparos.

Assim, havia dois tipos principais de sacrifício quanto ao teor da oferta: o sangrento, cuja oferta podia ser qualquer tipo de animal, variando de divindade para divindade; e o não sangrento, cujas ofertas mais comuns eram frutas ou cereais, mas também o peixe, e que não era considerado uma primícia por não ser ofertado ao início do ritual nem necessáriamente na estação das colheitas, sendo considerado mais puro (Burkert).

Por outro lado, quanto à forma, havia dois tipos de sacrifício: o Olímpico, o mais comum e efectuado para praticamente todas as divindades, exceptuando Hades e os mortos, no qual as pessoas partilhavam da comida; e o Ctónico, feito às divindades do subterrâneo, aos mortos, aos Heróis e aos Olímpicos quando venerados no aspecto Ctónico.

Neste artigo vou-me focar no ritual de sacrifício sangrento Olímpico como praticado nas Épocas Arcaica, Clássica e Helenística. Hoje em dia este é um tipo de ritual bem mais raro que na Antiguidade. De qualquer forma, foram arranjadas maneiras mais ou menos simbólicas para o substituir que, tecnicamente, não deveriam ser considerados sacrifícios sangrentos, como oferecer carne do talho ou bolos recheados em forma de animal, mas de outra forma seria impossível para a maioria de nós oferecer um sacrifício (quanto mais hecatombes com cem animais...). Para além disso, muitos, se não mesmo a maior parte, dos praticantes não sentem qualquer atracção por sacrifícios de sangue, achando-os mesmo impróprios, como também acontecia com algumas pessoas, Deuses ou cultos na Antiguidade.

 

Ocasiões e teor do sacrifício

O sacrifício era normalmente enquadrado como parte de um ritual maior, como na Ilíada quando se faz uma hecatombe a Apolo para pedir desculpa por uma ofença ou como no sacrifício de um leitão nos mistérios de Elêusis, de um festival, como os sacrifícios de uma vaca e um boi nas Heraias, de uma cerimónia de juramento ou, simplesmente, de uma oferta ou pedido, como em Delfos onde eram feitos sacrifícios antes de receber o Oráculo ou como os sacrifícios de galos em honra de Asclépio. O sacrifício de sangue era também uma forma de purificação, como no caso de Elêusis ou nos casos de homicídio, e precedia sempre a batalha e também o casamento.

O tipo de animal ofertado variava de Deus para Deus (boi para Zeus, vaca para Hera, leitão para Deméter, galo para Asclépio, cabra e veado para Apolo e Artémis, e por aí adiante), mas era comum ofertar vários tipos de animal para o mesmo Deus, variando conforme a disponibilidade económica da pessoa que fazia a oferta e conforme o ritual. Havia no entanto alguns tabus, que variavam de cidade para cidade (não se sacrificavam cabras a Asclépio, excepto em Cirene(Edelstein)) ou de festival para festival (exceptuando algumas raras ocasiões não se sacrificavam cavalos a Apolo(Farnell)).

No entanto, havia uma espécie de escala para todos os animais e Deuses: o sacrifício mais raro era o de cavalos, o mais nobre o de um boi ou de um touro, o mais comum o de ovelha, cabra e porco. Mas também havia ofertas de leitão, galinha, ganso, pombo e até peixes. O sacrifício de peixes, no entanto, era encarado como não sangrento. (Burkert)

O mais comum era que se oferecessem machos a divindades masculinas e fêmeas a divindades femininas, mas havia excepções para certos ritos. Outra regra geral, mas com muito mais excepções, era escolher animais de pêlo branco para divindades Olímpicas e de pelo preto ou negro para divindades Ctónicas. (Adkins)

Quanto à forma como eram feitos os sacrifícios sangrentos no contexto Olímpico, o mais comum, e aquilo sobre o qual me vou focar, era o degolamento ritual junto ao altar. Mas havia outras formas de sacrifício, como o afogamento (em alguns rituais a Poseidon ou aos rios) ou a incineração de vítimas vivas (como no ritual em honra de Artémis Láfria descrito por Burkert). Em termos de sacrifício humano, uma forma mais primitiva, era também conhecida a morte por apedrejamento, por chicoteamento ou o atirar de um penhasco (Farnell).

Normalmente um sacrifício não existe no vácuo, não só por ser realizado enquadrado dentro de um outro ritual, mas também porque é normalmente acompanhado de outras ofertas comestíveis que se queimam ou afogam (Burkert), de libações, hinos e afins. Ele é realizado num temenos na maioria dos rituais, mas em casos especiais, como antes das batalhas, em rituais específicos ou em ofertas de pessoas que não têm no momento acesso a temenoi, é feito em qualquer local.

 

Significado do sacrifício

Normalmente o sacrifício tem um carácter de comunhão, uma forma de expressar kharis, mas também é possível que seja uma espécie de refeição sacramental em que os participantes acreditam comer a carne onde o espírito do Deus encarnou (Farnell), um pouco como acontece nas hóstias da Igreja, embora esta função seja normalmente cumprida por refeições partilhadas com o Deus e não em sacrifícios.

Por outro lado, o sacrifício é um retorno às origens primitivas e lembra-nos que temos que matar e tirar da natureza para nos alimentarmos, pelo que pode ser encarado como uma espécie de redenção (Burkert), provavelmente com origem no Neolítico.

Finalmente, há também rituais em que o sacrifício tem um carácter mágico, como em Metana quando se sacrificava um galo que se cortava ao meio, correndo dois homens, cada um com uma metade, ao encontro um do outro ao redor da vinha, enterrando-se o galo no sítio onde se encontravam. Tudo isto era uma forma de proteger as vinhas dos ventos, mas também de purificação (Burkert), onde normalmente o animal é completamente queimado (Adkins).

 

Ritual de sacrifício

O sacrifiício era uma festa ao Deus. Como tal para esta ocasião as pessoas lavavam-se e colocavam uma coroa de ramos e flores na cabeça, vestindo-se ao seu melhor. Também o animal não escapava a esta preparação: envolvido com faixas coloridas, com os cornos, caso os tivesse, pintados de dourado, espera-se que ele vá voluntariamente para o altar, e durante o sacrifício espera-se que ele dê o consentimento baixando a cabeça. Um animal que luta para se afastar do altar é um mau sinal.

Procede-se a um ritual normal, em que se faz uma procissão com os lugares bem definidos, dirigindo-se até ao altar do Deus. Isto acontece em situações de festivais, sendo que em outras ocasiões esta parte é saltada.

Então faz-se uma purificação final, colocando-se as pessoas ao redor do animal e do altar e passando o cesto com a cevada e o jarro com a água de mão em mão. Salpicam-se as pessoas e também o animal, sendo nesta altura que se espera o seu consentimento, baixando o animal a cabeça e expondo o pescoço, como que autorizando a sua morte.

Dá-se o katharkhestai: todo seguram um punhado de cevada na sua mão enquanto o sacerdote faz uma prece ou um pedido, atirando então todos os grãos de cevada como oferta preliminar. Esta parte do ritual tem sindo erroneamente interpretada pelos praticantes modernos desde Drew Campbell como uma forma de purificação, quando é uma forma de primícia ou, quanto muito, de invocação (Burkert).

Corta-se um punhado de pêlos do animal e atiram-se ao fogo como um sacrifício antes do sacrifício. O animal é morto logo de seguida, no meio de um silêncio quebrado pelo grito estridente das mulheres que o lamentam (ulular), enquanto se deixa que o sangue encha o altar e corra para recipientes apropriados para o efeito.

Esfola-se o animal, provam-se imediatamente as vísceras, sendo estas atribuídas a pessoas importantes, principalmente o coração e o fígado. É durante este procedimento que o sacerdote interpreta o interior do animal em busca de sinais, mas só em tempos pós-Homéricos.

Os ossos juntamente com pequenos pedaços de gordura e carne são colocados no altar, como que a reconstruir a vítima, e são queimados juntamente com todas as outras comidas. É derramado vinho sobre este fogo, esperando-se que o inflamar do álcool seja um sinal de aprovação do Deus.

É então preparada a refeição enquanto decorrem outros eventos. A pele do animal fica normalmente na posse do santuário ou do sacerdote.

 

Origem do ritual

O costume de reconstruir a vítima está ligado à expiação da morte, ao sentimento de culpa e dependência, sendo muito provável que remonte aos caçadores do Neolítico que penduravam as partes não comestíveis da sua vítima como que para a reanimar e se absterem da culpa de a terem morto.

A curiosidade de serem oferecidas ao Deus praticamente só partes não comestíveis não passou despercebida aos antigos e havia até um mito, contado por Hesíodo, que contava o motivo. É que há muito tempo atrás os nossos antepassados e os Deuses sentavam-se juntos à mesa e partilhavam das refeições.

Mas um dia Prometeu decidiu que o Homem estava a comer pouco e juntamente com os seus protegidos fez dois montes de comida: um com a gordura e os ossos dispostos de maneira apetitosa e outro com a carne disposta de maneira repugnante. Deu a Zeus a escolher e o Deus obtou pelo monte da gordura e ossos.

Zangado, ele castigou Prometeu e o Homem, declarando que não mais os Deuses se sentariam juntamente como os homens para uma refeição. Mas a partir daí os homens mantiveram a tradição de oferecer as partes não comestíveis ao Deuses que, segundo muitos autores antigos, se regozijavam com o aroma da gordura que subia aos céus.

Mais tarde este mito foi corrigido para se adaptar mais à imagem de Zeus como Deus quase omnisciente e todo poderoso e foi dito que Zeus sabia da tramóia e escolheu a má parte apenas para castigar Prometeu e os homens pela sua insolência.

 

Resumo

Há vários tipos de ritual, sendo o sangrento Olímpico o mais comum. Hoje em dia são feitas reconstruções deste ritual sobretudo simbólicas e não tanto com animais reais. O sacrifício era feito em várias ocasiões e eram sacrificados vários animais, tendo cada Deus as suas preferências e os seus tabus, mas existindo uma espécie de escala de nobreza do sacrifício. Dos vários tipos deste ritual a incineração da parte não comestível da vítima é a mais comum, sendo feita juntamente com outros tipos de comida. O sacrifício tem um carácter de comunhão, mas também é uma forma de purificação ascendente ao Neolítico e um ritual mágico. No ritual as pessoas vão arranjadas, o animal é decorado, esperando-se o seu consentimento em duas ocasiões, sendo ele morto após várias acções rituais (procissão, purificação, oferta de cevada, oferta preliminar) juntamente com o grito das mulheres. As partes não comestíveis são oferecidas reconstruindo a vítima e as comestíveis são comidads pelas pessoas. O mito do logro de Prometeu procura explicar esta estranha distribuição.

~Miguel

 

Fontes:
 - Adkins, Lesley e Roy; Handbook to Life in Ancient Greece - Updated edition, Facts on File
 - Burkert, Walter; Religião Grega na Época Arcaica e Clássica, Fundação Calouste Gulbenkian
 - Edelstein, Emma e Ludwig; Asclepius: Collection and Interpretation of the Testimonies, Johns Hopkins
 - Farnell, Lewis Richard; The Cults of the Greek States volume IV, Elibron Classics