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Thiasos Portus Kale |
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A Ciência e a ReligiãoOs milagres que a ciência (não) nos roubouOuvimos falar frequentemente que a ciência e a religião não são compatíveis, de como estão em permanente choque ameaçando-se simultaneamente. Assim, dizemos, aconteceu quando a Igreja tentou travar a ciência numa série de eventos lamentosos e assim parece estar a acontecer agora, mas de forma inversa, quando a ciência nos consegue explicar tanta coisa e fazer tanto por nós. Mas será isto necessário? Será que não é possível ciência e religião coexistirem? Hoje em dia vivemos tão centrados nas nossas stressantes vidas que raramente paramos para pensar e reflectir. Esperamos que tudo continue como costuma, vivemos na ilusão de que nos encontramos cristalizados, de que o tempo não passa, mas ele passa e, por vezes, ao apercebermo-nos disto ficamos assustados, mas logo os nossos mecanismos psicológicos naturais reprimem esta fonte de problemas e tornamos a esquecermo-nos. Deste modo esperamos que tudo continue como é, que tudo seja normal. Por isso, dizemos que não há milagres, pois tudo é só isso, normal, ordinário, vulgar. Há quem afirme que foi a ciência que instigou este pensamento: é normal que ao largarmos um copo ele caia e se parta – é a força da gravidade. Mas será isto culpa da ciência? Foi ela que tirou a magia e o mistério ao mundo? Vejamos agora um outro ponto de vista. Imaginemos que não tínhamos ciência, que vivíamos há muito tempo atrás, num tempo em que apenas existia a religião, ou até que esta não existia. Imaginemos agora que, e isto vai precisar de mesmo muita imaginação, nesses tempos também tínhamos copos. Não custa pensar que se eles caíssem se partiriam de igual modo. E não há ciência. Agora, estas pessoas, que não têm qualquer noção científica, estão também habituadas a que os copos ao serem largados caiam e se partam e, como tal, não ficam surpreendidas. E não foi a ciência que tirou a magia ao evento. Pensemos agora numa outra situação. Cá estamos nós na nossa vida pacata e altamente esclarecida, quando, por algum motivo, uma tempestade começa na nossa terra onde a última vez que algum relâmpago iluminou os céus foi nos tempos dos nossos avós. Olhamos pela janela e vemos os relâmpagos descer dos céus e cair na terra. Ouvimos os trovões e vemos os vidros vibrar e, naturalmente, sentimos algo: medo, respeito, emoção… Mas não ficamos indiferentes. Sentimos e somos tocados e, no entanto, temos a ciência. Do mesmo modo, numa mesma situação, mas há milhares de anos atrás, os nossos antepassados sentiam o mesmo medo, respeito ou emoção. E não tinham ciência. Mas e se este evento ocorresse numa terra em que as tempestades fossem tão comuns as folhas nas árvores. Então, um exemplar da nossa civilização técnica olharia e talvez pensasse “oh, mais uma descarga eléctrica”. Uma reacção semelhante aconteceria, por exemplo, a um grego “oh, lá está Zeus”. É minha opinião que não é por sabermos os mecanismos de fecundação, de mitose, o modo como o bebé cresce e como nasce que isto tira a emoção que os seus pais sentem quando o seguram pela primeira vez. Não é por saber enumerar as substâncias que percorrem o sangue e os mecanismos fisiológicos que conduzem ao amor que amar deixa de ser mágico, ou que sentir medo deixa de ser… assustador. Por isso, penso que não é a ciência que tira a magia à vida, nem tão pouco prejudica a religião. Uma prova disto encontra-se, justamente, nas origens da ciência, quando esta e a religião conviviam sem problemas, antes de existir uma instituição que quisesse o monopólio da verdade, esta prova encontra-se na Grécia Antiga. Nesses tempos os homens começaram o caminho da ciência e, no entanto, não abandonaram a religião, nem, tão pouco, a diminuíram. De facto, havia especulações sobre se a terra era estática ou girava em redor de algum astro, nomeadamente do sol, se era plana como nos mitos ou redonda, como Aristóteles depois provou, e isto não destituiu a fé. O mesmo não fez os avanços na medicina e cirurgia. Para um grego antigo que soubesse os mecanismos que impelem os relâmpagos, estes não seriam menos sagrados, porque o sagrado e os deuses fazem parte deste mundo e a explicação de como estes funcionam não os diminui, apenas nos ajuda a compreendê-los. Afinal, quem pode afirmar que Zeus não existe quando foi descoberto que realmente existem leis e energias que comandam os relâmpagos? Porque afirmam que Apolo não existe quando foram descobertas partes do cérebro que estimulam o pensamento artístico? Como podemos dizer que Dionísio não nos possui quando sabemos as substâncias exactas do álcool que nos embriagam e os efeitos precisos destas no nosso corpo? Será que Afrodite perdeu o poder por sabermos os seus epítetos químicos se os nossos corações ainda se apaixonam? Na minha opinião a ciência só veio a confirmar que existem “forças” que governam o nosso universo, independentemente de lhes chamarmos leis, paradigmas ou deuses. Não foi a ciência que tirou a magia do mundo, nem o espanto, nem o milagre. Se agora ao olharmos para as marés e dizemos que são causadas pela força de atracção da Lua ou por um deus marinho, o evento não deixa de ser encarado como normal, científico ou divino, mas normal. Mas se não é a ciência que tira a magia ao mundo, nem é a religião que a confere, então qual é o factor que não encontramos nesta fórmula? A resposta é bastante clara quando a sabemos e já foi descoberta há muito pelos filósofos, talvez até antes, mas para a compreendermos pensemos num pequeno exemplo. Imaginemos uma criança. Para elas o mundo é sempre novo. Um coelho é sempre uma novidade, mesmo que já visto várias vezes antes. O nascer do sol é algo fantástico, o vento que agita as folhas é a magia a sussurrar por ela. Assim as crianças passam duas fases críticas que muitos aborrecimentos dão aos pais, a fase do “o que é isto” e a famosa fase dos “porquês”. Mas, com o tempo, a criança torna-se apática ao milagre do mundo, tal como os adultos que a rodeiam. Daqui se conclui que o espanto pelo mundo é algo inato, já que as crianças o possuem e só depois o vão, lentamente, perdendo, pelo que, ao contrário, a falta de espanto é adquirida. Qual é esta força misteriosa que opera transformações tão grandes nas nossas mentes? O Hábito. É por estarmos habituados a que a terra se molhe quando chove que não ligamos ao facto. É por estarmos habituados a que o sol exista durante o dia e a lua durante a noite que não nos surpreendemos quando isto acontece. E quando a lua se sobrepõe ao sol durante o dia sabemos o que é, mas continuamos a admirar e a sair à rua para ver, porque não é normal. Não é por sabermos quais os mecanismos porque isto acontece, já que os antigos também os sabiam, isto é, da mesma forma que nós sabemos que o sol causa o dia e o brilho da lua é um reflexo do seu, os antigos sabiam que o sol era um Deus que caminhava durante o dia e a lua uma Deusa que brilhava para nos guiar durante a noite. Alguém pode dizer que eles apenas acreditavam, mas qualquer cientista está ciente de que a ciência é também um mero sistema de crenças e que aquilo que, na verdade, apenas acreditamos hoje, pode vir a ser comprovado como uma grande mentira. Acreditar é saber, acreditar é ter fé. Agora imaginemos que um dia o sol surge no céu e não há dia. Ficaremos aterrorizados, ou curiosos, mas não porque isso quebra o nosso conhecimento científico: ficamos nesse estado porque o nosso sistema de crenças é quebrado e o nosso hábito contrariado. E do mesmo modo ficariam os antigos. Tudo isto para concluir que, na realidade, ciência e religião são perfeitamente compatíveis e que é, na verdade, o hábito o responsável pela perda do espanto e assombro pelo mundo. Isto, porque já os antigos eram apáticos relativamente ao que se passava ao seu redor que, embora divino, era normal. Se queremos ver o mundo com olhos místicos e evoluir espiritualmente, não devemos cegar-nos para a ciência, antes aprendê-la, mas o primeiro passo de todos, o mais importante, deve ser tomado quanto antes: devemos libertar-nos das correntes do hábito para olharmos o mundo como crianças de novo. Esta é a atitude do filósofo, mas também é a do cientista e a do religioso devoto. Todos eles se maravilham na dança do mundo, todos eles o estudam e se perguntam sobre ele, todos eles são, na verdade, irmãos de armas.
~Miguel |
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